O Dia da Morte - pintura de William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)
Agora, pensemos: se nascemos com esse “medo”, se nascemos com essa “dor”, se nascemos com a certeza desse fato inevitável, porque evitamos refletir sobre essa “dica” que a vida nos dá? Parece uma voz interna que volta e meia nos atormenta: “Sabia que um dia todos morreremos? Sabia que um dia tudo isso que você é deixará de ser? O que você acha disso? Tem medo de morrer? Sofre quando alguém que você ama morre?”.
Deixemos de ouvir a voz interna e ouçamos a Ciência. Essa sim está por dentro dos “últimos acontecimentos” e nos dirá, para nossa tranquilidade (?) (voz fria, reta, rápida e sem gaguejos): “Conforme-se! A vida é isso, início, meio e fim, transformação de elementos ao longo de bilhões de anos desde o Big Bang. Lembra-se? Big Bang? O início de tudo? Aquela matéria e energia comprimidas em um único ponto que explodiu há mais de 13 bilhões de anos atrás? Pois é, aceite! Hoje Leopoldo, amanhã adubo! Desculpe, popularizei, são elementos transformados!”. Mas, Senhor Cientista, uma coisa é ser um elemento que se transforma ao longo de bilhões de anos sem saber nem que é um elemento, outra coisa é ter consciência que sou um elemento, ou seja, um elemento que faz uso da razão, discernimento, que antes de virar adubo, desenvolve sentimentos por outros elementos. Mas que merda é tudo isso então? Depois de bilhões de anos cheguei ao topo da cadeia alimentar com esse diferencial soberbo que é ter razão, tenho um pai, uma mãe, irmãos, amigos e pessoas que amo, trabalho, fiz faculdade, cumpro com o rodízio de veículos e obedeço às várias outras regras sociais existentes, pago imposto, fico puto da vida quando meu time de futebol perde, e, no final das contas, porque fazemos essa porra toda se no final tudo acaba em adubo? (antes acabasse em pizza!).
Imagem do nascimento de estrelas a 12 bilhões de anos-luz da Terra
Amo a Ciência e já cheguei a me emocionar diversas vezes com descobertas científicas nos vários campos de pesquisa por esses cientistas memoráveis, mas precisei balancear essa voz científica com a voz interna. Sinto que, se todos fossem ouvir só o discurso científico, entraríamos numa onda anárquica e caótica.
Eis que surgem em nossa história as religiões e seus rituais (religião, do latim, ligar novamente ou religar) para tentarem abrandar a angústia do medo e para os que não se contentavam em simplesmente virar adubo! Difícil é observar que a maioria das religiões tem contribuído para aumentar a angústia ao invés de abrandar. A maioria das religiões não consegue responder de forma satisfatória sobre essa dúvida que nos cerca desde o nascimento. Nem vamos comentar sobre as religiões que, além de não responderem, exploram as pessoas em suas angústias. Se as religiões existem para que possamos nos ligar novamente com a Verdade, para que possamos responder a essa dúvida que nos angustia, então no mínimo deve haver um balanço entre razão e fé. Deve haver uma resposta que una o que a ciência explica e o que a ciência ainda não pode explicar. Afinal de contas as religiões são criações do homem, ou seja, pelas mesmas pessoas que nascem com nossa maior dúvida e certeza. Deve haver equilíbrio, deve haver estudo, deve haver uso dessa capacidade que é, justamente, a capacidade que cria nossa maior dúvida desde que nascemos: a capacidade de pensar e refletir. É aí que ferra tudo de vez! As pessoas não questionam, as pessoas não estudam, as pessoas aceitam o que alguns dizem ser a Verdade porque pensam que esses alguns possuem uma capacidade maior que a delas de ver e entender a Verdade. Por falta de estudo, por falta de uma metade científica nas pessoas, por estarem tão angustiadas com a dúvida primordial e por estarem presas aos afazeres cotidianos, as pessoas sucumbem ao que é “imposto” pelas religiões.
Basílica de São Pedro no Vaticano
Eu não sucumbi! Lógico que quem questiona é sempre visto como subversivo, mas preferi arrancar esse medo do peito, e fui logo usando a ferramenta que me difere do elefante e do mosquito. Resultado disso é que fui expulso três vezes das minhas aulas de catecismo. A primeira expulsão foi porque questionei: “Uma pessoa que não se arrepende de seus pecados é mandada pro Inferno, mas e se depois de estar lá um tempo ela se arrepender? Ela é resgatada de lá?”. A resposta foi “não”, e logicamente foi seguida de uma nova pergunta “por quê?”, seguida por uma inteligente nova resposta “porque não!”. E na ausência de uma explicação mais clara eu bradei: “Então vai queimar no fogo do Inferno!”. Fui expulso! Minha segunda expulsão foi por perguntar como a Maria podia ser virgem e ter tido um filho. E a terceira expulsão foi porque eu já estava cheio de nunca ver lógica em várias coisas, nunca receber respostas claras, então, comecei a sabotar a aula.
O Inferno de Dante Alighieri. Dante e Virgílio no Inferno, quadro de William-Adolphe Bouguereau
Hoje vejo que quem quer respostas e busca por elas, as recebe. Não recebemos de forma direta, mas por vias muito mais maravilhosas. Em um curto namoro de três meses com um doce de mulher, conheci através da mãe dela o Espiritismo. Se o namoro não deu certo porque eu não estava inteiro para poder retribuir à atenção e carinho que recebia, meu espírito investigativo aproveitou a relação para sondar minha sogra com algumas perguntas sobre o Espiritismo. Como todas as minhas perguntas tinham respostas e minha sogra se sentiu num interrogatório interminável, ela me aconselhou o que hoje aconselho para todos: estudar. Não adianta ver pelos outros, e sim, por si próprio, através do próprio estudo. Ela me deu um pequeno livro chamado Livro dos Espíritos no dia 19 de Janeiro de 2001 e desde então estudo o Espiritismo.
Quer saber se consegui aliviar a angústia sobre a única certeza que temos na vida? Não, porém, não porque não sei o que ocorre depois da morte, mas porque hoje sei qual a importância da vida. Mesmo estudando muito e ainda não conseguindo manifestar em gestos e palavras a importância que a vida deveria receber de mim, quando os outros me perguntam se tenho uma religião, respondo que tenho um estudo: o Espiritismo. Daí vem aquelas perguntas de quem nunca se deu ao trabalho de pesquisar sobre as religiões: “mas você é espírita mesa branca?”, e eu sempre respondo, “só se a toalha da mesa for branca porque se for azul eu serei um espírita mesa azul”. Ou ainda tem aquela pergunta: “você é espírita kardecista?”, e eu sempre respondo, “se eu seguisse Allan Kardec poderia ser, mas não é ele que eu estudo e sim às máximas e explicações de Jesus Cristo!”.
Túmulo de Allan Kardec em Paris
Existem diversos caminhos que podem nos levar para um mesmo destino. Acredito que o segredo não é pegar o caminho mais longo e nem o mais curto, mas estudar o caminho que se vai percorrer em todos os seus detalhes.




